Oxalá: an endangered word?

Desde que comecei a aprender sobre a origem das palavras (no antigo “ginásio”, se me lembro bem), uma palavrinha que vem sempre me intrigando é oxalá, no sentido de ‘tomara que’. O significado original em árabe, dizia-me a professora, era algo como “queira Alá”. Para que não me falhe a memória, vou citar o dicionário — e, como não tenho aqui comigo o Aurélio (ou qualquer outro dicionário decente de português), contento-me com o verbete do dicionário da Real Academia Española para o equivalente em espanhol:

¡ojalá! (Del ár. wa-ša ‘Allah, y quiera Dios.) interj. con que se denota vivo deseo de que suceda una cosa.

O que me intrigava, e me intriga, é o seguinte. Como pôde esta palavra, originalmente muçulmana, resistir à Reconquista, sobreviver a Inquisição e até mesmo — feito ainda mais heróico — meter-se na nossa Bíblia? Sim, porque, ao contrário do espanhol, em português (brasileiro, pelo menos), tal palavra é puramente literária. E, entre os poucos textos acessíveis a um menino de ginásio no interior de Goiás, a Bíblia era certamente a que fazia uso mais abundante desta palavra.

Há uns poucos anos, porém, comecei a desconfiar que haveria uma conspiração contra esta palavrinha. Por exemplo, na última missa a que assisti (e isso faz um bom tempo), percebi que o padre sistematicamente a evitava, mesmo quando a dita cuja estava impressa no roteiro da missa. Agora minhas suspeitas se confirmam. Fuçando na internet, descobri um sítio que permite comparar diferentes versões da Bíblia. Fazendo isto, percebi que a versão atual do texto protestante (de João Ferreira de Almeida) aboliu por completo o uso de oxalá, muito comum em versões anteriores. Como ilustração, basta comparar duas versões de Salmos 139:19:

Oxalá que matasses o perverso, ó Deus, e que os homens sanguinários se apartassem de mim. [1967]

Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue. [1994]

Em princípio, pareceu-me que oxalá seria apenas mais uma vítima do modernismo lingüístico. Mas, notando que palavras ainda mais esdrúxulas e raras sobrevivem no texto atual (galardão…), desconfio que a razão seja mais sombria: evitar qualquer alusão, acidental que seja, a Oxalá, o orixá que, na umbanda, é “associado à criação do mundo e da espécie humana” (segundo a Wikipédia). Eu, que tenho uma tremenda simpatia por palavras (como outras tradições humanas) ameaçadas pelo preconceito e a ignorância, torço pela sobrevivência desta heroína. Queira Oxalá (e Deus, e Alá) que oxalá perdure.

Update, 1/jun/2008. Desde que me mudei para outro endereço (http://blog.etnolinguistica.org), este “post” está também disponível lá: http://blog.etnolinguistica.org/2007/10/oxal-endangered-word.html

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